sábado, 7 de maio de 2011


Há pouco tempo, os cristãos se reservavam durante a Quaresma. Nesse período, não se faziam festas e muito menos se dançava.
João Cavalheiro de Oliveira, o Jango, era um jovem vistoso e muito alegre, mas tinha um defeito: não podia ficar sem dançar. Gostava de bailes como ninguém.
Certa vez, na Quaresma, disse para si mesmo que iria a um baile, nem que fosse no inferno. Selou o cavalo e saiu à procura de um. Cavalgou desde o anoitecer até perto da meia-noite. Foi, então, que para sua alegria, ouviu o som de música animada vindo de uma casa toda iluminada no alto de um morro. Não teve dúvidas. Picou a montaria com a espora e chegou diante da casa. Apeou, amarrou o cavalo e foi dar uma espiada. Lá dentro, as pessoas estavam todas dançando animadas. A sua entrada foi franqueada por um cavalheiro baixinho, todo sorridente. Meio ressabiado, Jango foi logo entrando. Por mais que olhasse para as pessoas, não reconhecia ninguém daquela gente.
Mas a sua intenção era dançar e já foi convidando uma moça bela para lhe acompanhar numa contradança. Porém, ficou decepcionado, pois a moça tinha um mau-hálito terrível. Convidou outra. Mau-hálito de novo. Passou por umas cinco moças, todas apontavam o mesmo problema. Sentou-se junto dos músicos meio desconcertado. Foi quando se deparou com uma clarineta, ociosa, ao seu lado. Como nenhum dos músicos usava este tipo de instrumento musical, apanhou-a, mais por curiosidade. Instintivamente, levou-a à boca, mesmo sem nunca haver tocado tal instrumento. Para seu espanto, a mesma música que a banda tocava foi fluindo como mágica da sua clarineta. O povo aplaudiu. Os músicos lhe sorriram num gesto de aprovação. Todo faceiro, disse para si mesmo que não conhecia esse seu próprio dom: era um grande músico e não sabia. Tocou durante a noite inteira e, o público e dançarinos, aplaudiam-no. Virara uma celebridade em pouco tempo.
Quando o dia já despontava, as pessoas foram saindo. Logo a sala estava vazia. Mas ele só se deu conta quando os músicos desapareceram atrás de si e o silêncio imperou na casa. Estranhou, mas não entendeu. Esqueceram de levar a clarineta. Procurou pelas pessoas, não encontrou mais ninguém. Pegou a clarineta e ajeitou na sela e levou-a junto. Se achasse alguém perguntaria como proceder para devolver ao legítimo dono. Contudo, não encontrou ninguém até chegar em casa. Cansado e sonolento, guardou o instrumento em cima do armário e deitou-se para dormir.
A tarde já ia longe quando acordou. Lembrou-se satisfeito da façanha de aprender a tocar um instrumento musical numa noite e quis repetir para mostrar aos familiares. Foi apanhá-lo onde havia guardado. Levou o maior susto de sua vida. No lugar da clarineta havia um gato preto, morto e já seco, com o rabo todo mascado.
[Autor desconhecido -História contada por Clóvis Erzinger]

2 comentários:

ماريليا disse...

Puxa, que legal. Gostei muito da estória. É maravilhoso ter um tio com lembranças tão ricas e um dom fantástico da escrita que nos leva para dentro do conto como se estivessemos vivenciando tal fato.
Beijos tio amo você.
Marília

ro disse...

achei essa historia orrípilante...mas gostei.